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Diria o profeta tricolor (foto 1) que o sujeito quem nunca assistiu ao Canal 100 não viveu. Os primeiros pontos em preto-e-branco dos tempos de um jornalismo romântico imortalizavam imagens de um futebol igualmente romântico, cujos atores poderiam ser um anjo, como o da perna torta, ou um Deus – lembro-me do imortal Carlito Rocha -, e ainda havia príncipes, reis, mestres e até um vira-lata da sorte, o Biriba, uma espécie de pé de coelho para os alvinegros. Já ia me perdendo, mas não tão tarde, dos inesquecíveis manés, que incumbidos da ingrata tarefa de marcar Garrincha arrancavam gargalhadas do público que lotava o estádio Mário Filho nas tardes de domingo. Ossos do ofício daqueles pobres zagueiros, circo garantido para as multidões.  

O Profeta Tricolor

O Profeta Tricolor

Antes de continuar, preciso confessar, caro leitor, que não estava lá para confirmar a veracidade dessas e de outras estórias que conto. Imergia em alguns minutos mágicos do futebol pelas telas do Canal 100, aos sábados à tarde, canal Bandeirantes, sempre em véspera de clássico no Maracanã. De fato, não sei se os jogos, em todos os seus 90 minutos, eram tão encantadores e, por vezes, sobrenaturais, como narravam os épicos, dramas e poesias de gênios do jornalismo esportivo como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira ou o próprio Mário Filho em carne e osso.

A história oficial – sempre muito objetiva e, por isso, com uma imparcialidade entediante – relata que o cinejornal Canal 100 nasceu nos idos de 1958, e por suas telas desfilaram os principais esquetes, craques e campeonatos do país durante 27 anos, sempre antes das sessões de cinema. Pela autoridade que me confere esta pena na mão, retificarei essa informação. Na verdade, o canal 100 era veiculado pela televisão, sempre depois da carne assada na casa da minha avó, para uma platéia formada por primos, tios e avô, cujos comentários saudosos transmitiam colorido aqueles clássicos desbotados pelo tempo, mas não pela memória. 

Mas tudo isso foi no tempo em que DonDon jogava no Andaraí. O Canal 100 não teve vida longa também na televisão. O que restou foi uma lacuna jamais preenchida na vida de todo brasileiro apaixonado por futebol.

Independente do Canal 100, a vida continuou e a carne assada da minha avó também. Entretanto, agora, no domingo à noite, costumava parar em frente à TV para compartilhar palpites de ex-jogadores, jogadores e técnicos, que discutiam com base em uma lógica inexistente no futebol. Era o boom das mesas redondas. Primeiro, foi na CNT, com Garotinho e Gerson, o Canhotinha de Ouro (foto 2). Depois, chegou a vez da Band e da Record. 

Gerson Canhotinha de Ouro

Gerson, o Canhotinha de Ouro

Outra coincidência, repito “coincidência”, foi o desânimo crescente do menino de 12 anos pelo futebol profissional. Poderia culpar as fulminantes paixões adolescentes ou as responsabilidades que vinham com o bigode. Mas, não. As mesas redondas acabaram com os tempos de DonDon. Discutia-se tudo ali – transações milionárias, ídolos que viravam a casaca, atitudes politicamente incorretas – menos aquilo que, anteriormente, fazia a piada pronta nos botecos e esquinas do Rio de Janeiro.  

Disse anteriormente que “o que restou foi uma lacuna jamais preenchida na vida de todo brasileiro apaixonado por futebol”. No meu caso, esse vazio encontrou lugar nas peladas de pés descalços nas ruas de Madureira. Pelo menos ali, tantos outros meninos como eu gostavam de pintar o sete à caminho do gol. Grifo que o mais importante era a plasticidade dos lances e dos dribles, que podiam te tornar o menino mais famoso e respeitado do bairro.

Passaram-se os anos – de certo modo, há anos não pulsava as ilusões do futebol de outrem –, e eis que em mais um domingo assistindo ao Fantástico surge o jornalista Tadeu Schmidt para comentar a rodada do final de semana. O surpreendente no quadro foi me deparar com a construção de uma narrativa esportiva mais humorada, irônica e inteligente do que a tradicional, que se propõe séria e racional. O que é tímido é a estória de fundo, aquela que compõe toda partida de futebol, ainda muito convencional se comparada com os tempos áureos do jornalismo esportivo. 

Querido leitor, já que teve paciência e chegou ao final dessa crônica, poderá entender que o exagero é fundamental na narrativa esportiva. Por isso, ainda fico com as batalhas no Coliseu do Canal 100.

Fla-Flu no canal 100

Fla-Flu no canal 100

Um morador de rua se encontra dormindo num banco. De repente, dois repórteres gritam de forma agressiva, interrompendo o sono e o sossego dessa pessoa. “Vai trabalhar vagabundo”, bradavam Sabrina Sato e Christian Pior. A irreverência foi levada ao ar para todo o Brasil, durante o programa Pânico. Esse é apenas um exemplo dentre vários que procuram estabelecer a quebra da compostura na atração televisionada pela Rede TV. Experiências de novos formatos de matérias e entrevistas são postas à prova inclusive no Custe o que Custar, da Rede Bandeirantes de televisão. Exibido às segundas-feiras, a proposta de humor inteligente e mais leve ganha forma no programa. A platéia ri e aplaude, enquanto contempla as fórmulas testadas nos canais. Mas a fronteira entre o hilário e o mau gosto não está bem definida, a ponto de um entrevistado levar um soco no rosto. Segundo especialista, a falta de exigência de formação para exercício de atividades ligadas à comunicação pode ser um problema, num contexto de liberdade de expressão.

Emilio Surita comanda o Pânico pela Rede TV! Emilio Surita comanda o Pânico pela Rede TV!

O programa Pânico, apresentado por Emílio Surita e um grupo de humoristas, apresentou no dia 14 de junho deste ano mais uma etapa do concurso “Musa da Praia: à procura da beleza interior”. Num cenário praiano, duas finalistas são escolhidas pelos repórteres “Sílvio” (Wellington Muniz) e “Vesgo” (Rodrigo Scarpa). Tânia Regina é extremamente gorda, a aparência é reforçada pelos movimentos de tremores na câmera, simulando terremotos. A outra, possível ganhadora do título, atende por Gláucia – não há preocupação em dizer o sobrenome desta no quadro. Ela é magérrima e simula poses sensuais com a língua de fora. Dentre os extremos, sobressaiu-se a gorda Tânia Regina, eleita a musa da beleza interior.

“É a brincadeira da piada pesada, quando eu vi o Pânico, morri de rir. Eles são muito inconvenientes”, declara Muniz Sodré, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, escritor e autor do livro “Comunicação do Grotesco”. Segundo Muniz, o grotesco está presente na tradição popular, aplicado às situações mais extremas, impensáveis como humanamente normais. Assim, a oposição entre obesidade e magreza é utilizada pelo Pânico. O estranhamento provoca o riso da platéia.

Mas o programa “Custe o que custar”, comandado por Marcelo Taz, Rafinha Bastos e Marco Luchi, revela uma feição um diferente, sem deixar de fazer a platéia vibrar. Um formato humorístico de tom mais político é empregado a partir de assuntos em pauta na imprensa. Um exemplo é verificado na reportagem sobre a “Parada Gay” de São Paulo, exibida no programa apresentado no dia 15 de junho deste ano. Nessa matéria, o repórter Daniel Gentile faz referência a uma declaração homofóbica da parte de um político e pede a um homossexual mandar um recado ao parlamentar. Durante a entrevista final, a petista, Marta Suplicy é questionada acerca de um ato discriminatório endereçado ao prefeito atual da capital paulista Gilberto Kassab. O humor do CQC questiona e confronta políticos e personagens públicos.

CQC

As experimentações nas reportagens com formatos humorísticos provocam discussões. O limite entre o riso descontraído e o humor negro não está claro. O ator Victor Fasano chegou a dar um soco num dos repórteres do Pânico, sem aceitar uma piada praticada. Para Sodré, não existem maneiras de deter a irreverência nos meios de comunicação, por haver liberdade de expressão na democracia: “Você está sujeito à ofensa”, adverte. Mas o professor lamenta a queda da exigência do diploma de jornalismo, última profissão em comunicação com obrigatoriedade do superior para exercício do trabalho. O professor afirma que o comunicador precisa de uma formação para lidar com questões éticas durante exercício profissional: “Há necessidade de um lugar que sirva de guia”, alerta. Sem parâmetros científicos, os programas humorísticos são uma realidade na mídia.

“Ela está animada. É sábado, 13 de junho, dia de Santo Antônio. Portanto, vamos a igreja do Santo.

Renata vai ao monitor e chama a repórter:

- O Gabriela, hoje tem quermesse, tem música, tem oração e (descendo do tablado e falando pausadamente, insinuante) tem também que eu sei muitos pedidos pra Santo Antônio.

- É isso mesmo Renata, muitos pedidos. Mais cedo eu conversei com várias moças com grandes esperanças de encontrar um marido depois dos pedidos que vão fazer aqui pra Santo Antônio…

E lá vai mais uma matéria pro Santo, e com que graça feminil!

Agora, seriamente, como professora dedicada, Renata anuncia o tempo, as estradas, e os acidentes:

- O tempo começou a melhorar um pouquinho(dulcíssima), em alguns pontos da cidade o sol já aparece mas quem pretende viajar ainda hoje deve ficar atento as condições das estradas. …(mais gravemente)Na via Dutra uma carreta tombou na Serra das Araras…

E assim começa mais um RJTV. O tempo está melhorando, mas Renata não pode anunciar feliz com um acidente na Dutra. Se não fosse o acidente provocado pela pista escorregadia o sol também poderia brilhar em seu rosto.

Vamos a passagem do 2º para o 3º bloco:

- Uma bagunça geral! O RJ foi a rua Intendente Magalhães em Vila Valqueire. Você vai ver como o pedestre não tem vez por lá, as calçadas têm um monte de obstáculos. E Flávia Januzzi tem todas as dicas pra quem adora um forró!

(Flávia) -Forró, quadrilha, cocada. As melhores festas juninas da cidade. Já já, eu conto tudinho pra vocês!

 Eu que adoro forró já estou de olho no próximo bloco, ansioso pra saber “tudinho” e conferir “todas as dicas” das melhores festas juninas da cidade! Ainda mais com forró, quadrilha e cocada!

 No 3º bloco…

 Renata agora está com as mãos cruzadas, sentindo mais o friozinho do estúdio.

- Quando junho chega junto com um friozinho a gente logo se lembra, ta na época das festas juninas, das quadrilhas e daquelas comidas típicas nordestinas deliciosas. Se você tá procurando um programão pra este sábado, que tal um arraiá? Flávia Januzzi, onde é que tem um arrasta pé? Conta pra gente.

Ah! Essa Renata é boa hein!

-Oi Renata, boa tarde. Olha, arrasta pé bom de verdade vai ser aqui na feira de São Cristóvão, ainda mais em dia de Santo Antônio…

Agora a programação da cidade:

- Alô Realengo, tem festa na praça da Cohab, e vai até Julho lá hein, povo festeiro também, com show de graça, comidas e bebidas a preços populares. Hoje tem Sítimo de pagode com Brincando de Samba às 6 da tarde na praça da Cohab. Viu Renata é muita programação!

Mas agora Renata ta mais calma e candidamente:

-Festa junina é um programa ótimo né Flávia porque reúne a família inteira. Obrigada.

 Uma pena que eu não soube tudinho e não conferi todas as dicas das festas juninas da cidade, mas a Renata me consola com sua voz doce. Doce e suave, para introduzir o idílio de Edney:

-Agora é hora do nosso bate-papo aqui no RJ. Hoje você vai conhecer um professor de surf que treina meninos e meninas da Rocinha. As crianças aprendem a se defender no mar e se esforçam até para participar de campeonatos. Edney Silvestre.

 O 4º bloco, o bloco da cultura, na íntegra:

 No início, a matéria que era para ter ido no 3º. Mas isso na Globo?!

- O RJ tá de volta e agora a gente vai mostrar uma reportagem que foi sugerida por uma amiga do RJ que mora em Vila Valqueire. As calçadas da estrada Intendente Magalhães não têm espaço para os pedestres… E olha que o RJ já fez uma reportagem no local mostrando exatamente esse mesmo problema. Pelo jeito tudo continua na desordem, nosso repórter Ronan Tardin foi até lá hoje cedo.

 

Renata Capucci - âncora do RJ 1ª edição

Renata Capucci - âncora do RJ 1ª edição

Só agora eu percebo como a Renata oscila entre um ligeiro sorriso, um franzir de sobrancelhas, e uma cara de parva, tudo sutilmente. Assim num texto como a cabeça da próxima matéria, em que nenhuma das três expressões pode se manifestar duradouramente, ela faz seu brilhante papel como uma equilibrista numa corda tênue, que escorrega, mas não cai. Ela passa e a corda oscila febrilmente, mas a nós parece que não oscilou, senão suavemente. Então quando ela fala na amiga do RJ e quando chama a atenção para a reportagem que o RJ já fez no local, se abre um ligeiro sorriso pelo lábio inferior, logo mudado em expressão de aparvalhamento, para demonstrar certa indignação. Mas essa amiga do RJ deve estar muito satisfeita, feliz por ver reconhecida sua amizade de forma pública, pública e secreta, já que não foi revelada a felizarda! Mas olha que o RJ já esteve lá hein! E a desordem continua? Mas será possível?!

 Depois de assistir a reportagem sugerida pela amiga, Renata pode andar mais firme na corda, atuando mais sobriamente, pois é hora de falar do voo da Air France:

-Agora as informações sobre a tragédia do voo 447…

Depois da matéria:

-O embaixador francês deve ficar no Brasil até quarta-feira.

 Essa última informação Renata lê realmente consternada depois da pesada matéria que fala das vítimas. Mas como hoje é sábado, hoje tem cultura e ela já é outra quando muda de câmera, como se tivesse passado da sexta pro sábado, e fica cada vez mais feliz a medida que vai lendo o texto:

- Agora tem cultura no RJ. Em Cabo Frio, bailarinos de tooodo país(quase que ia cantando) participam de um festival de dança. No palco, iniciantes e profissionais mostram a paixão pelos estilos clássico e contemporâneo.(roda matéria)

Mas como eu disse, hoje é sábado, e tem mais cultura:

- Agora uma dica imperdível pra você que adora teatro e não quer gastar muito. O projeto teatro a um real tem uma edição extra amanhã. Essa é a oportunidade que você esperava…

Mas como a Renata sabe amenizar as coisas hein! Eu que não posso gastar muito já estava achando que não quero gastar muito…

Mas porque hoje é sábado, tem mais cultura e mais animação:

- E pra você que fica ligado no nosso RJ de sábado sabe que a gente sempre tem ótimas dicas culturais, lá vai mais uma de tirar o chapéu. Chegou ao Rio a (levantando e saindo da bancada em direção a entrevistada) “A alma boa de Setsuan”, espetáculo da (pausa)talentosíssima Denise Fraga que hoje está aqui na nossa sala de visitas.

Ah! Como Denise e Renata combinam!

E Denise, inteligente e simpática fala sobre a peça:

- …Porque que a gentileza não gera automaticamente gentileza, porque que a gente precisa as vezes ser duro pra se fazer respeitar, a gente precisa mesmo? Ou a gente acaba abusando dessa dureza invés dela ser só uma alternativa a essa gentileza que a gente sentiu que foi abusada.

E Renata, concluindo sabiamente:

- É um texto que te faz pensar né.

Essa foi boa hein! Um texto que te faz pensar! Essa Renata…

- Na verdade é uma parábola de Brecht… continua Denise.

- Pois é, vamo contando essa história enquanto a gente vai vendo aqui… Se passa na China essa história né?… Essa é a sua personagem, é uma prostituta… Porque ela não sabe dizer não, ela é boazinha(só as intervenções da Renata)

Denise:

- Eu to muito feliz

- Dá pra ver, ela não para de falar de tanto que ela ta feliz. Deixa eu aproveitar e convidar o pessoal  de casa. “A alma boa de Setsuan”, no teatro dos quatro, no shopping da Gávea de sexta a domingo, classificação doze anos- agiliza Renata.

E Denise, terminando:

- …Obrigada Renata, eu quero muito que você veja.

- Com certeza

Mas que “com certeza” esse! Tão automático. Emendou com o texto da matéria a seguir:

-Agora meio dia e quarenta e cinco hein gente, antes de encerrar o RJ a gente da a informação de um crime que chocou os moradores de um condomínio de luxo  da Barra da Tijuca hoje cedo. Um empresário foi morto a facadas no edifício onde morava…

Mas sabe que a gravidade da Renata não foi tanta nessa última informação! Uma pena, porque o crime chocou os moradores de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca!

Pelo menos, assim será mais natural a despedida.

- O RJ termina aqui, nós nos encontramos a noite na segunda edição. Um ótimo sábado pra você e até lá.

Abre a câmera, sobe os créditos, e olha que agradável surpresa! A Denise ta ali sorridente e volta a conversar com a Renata! Essa Renata não é boba hein! Ainda consegue uma vaga na novela das oito.”

a grande família foto 2

A família é um mal necessário. Quantas vezes ouvimos essa expressão pelos corredores urbanos de nosso país? Tem gente reclamando que a estrutura familiar ruiu, deixando as relações interpessoais físicas em segundo plano. O que presenciamos é a abundância de comunidades virtuais espalhadas por todos os tipos de PCs.

A sociedade “globalista”, sujeita á opressão das camadas elitistas e subservientes à máquinas computadorizadas esqueceu que é no contato físico que está o verdadeiro sentido do amor. Atualmente, é comum presenciarmos em uma casa de classe média, três pessoas convivendo sobre o mesmo teto, porém um em cada cômodo. Sabe aquela história de que a hora do jantar é sagrada? Que todos devem estar reunidos em torno da mesa pelo menos uma vez por dia? Infelizmente isso acabou. Pai janta na sala; filho janta no quarto jogando videogame; mãe come um sanduíche na cozinha porque está de dieta.

Só vejo o sentido de família ser respeitado, apesar de todos os problemas relacionais apresentados, no Seriado da Rede Globo, A Grande Família. A estrutura daquela família ouriçada, que briga por qualquer razão, não chega a ser modelo, mas no final eles se amam e se respeitam. O genro pode ser um canastrão, mas na hora que precisa não tem as costas viradas pelo sobro.

Há quase 40 anos, a família brasileira, ou o que sobrou dela, se diverte nas noites de quinta-feira com o dia a dia de um grupo que tem a missão de reproduzir os momentos de felicidade, como também as agruras enfrentadas pelo povo brasileiro.

Muita coisa mudou no Seriado que passa pela sua segunda versão (a primeira foi dirigida por Oduvaldo Viana, nos anos 1970), menos o espírito debochado e crítico de retratar a realidade.

 A Grande Família  foto

Hoje fazer paródias sobre os deslizes de nossos políticos é comum e até certo ponto fácil, já que motivos eles nos oferecem aos baldes. Mas imaginem há quatro décadas atrás, quando o Brasil passava por um dos momentos mais negros de sua história? Era situação difícil e arriscada. A censura poderia não só dar um basta na Série, como prender e torturar seus idealizadores e diretores..

Porém, com muita maestria e de maneira subliminar, o programa conseguiu driblar os percalços e mostrar que o milagre econômico era apenas uma maneira de iludir a sociedade, quanto ao desenvolvimento. Tanto, que trouxe como personagens, o desempregado que sempre está com aluguel atrasado e passa a perna nos outros; o filho que, apesar da idade elevada, continua vivendo às custas do pai…O milagre Desenvolveu? SIM, mas o desenvolvimento veio acompanhado de dívidas que permanecem até hoje.

Nos episódios da segunda versão que estão no ar há cinco temporadas seguidas, o desemprego continua sendo retratado, apesar de nossos governantes assegurarem que os índices diminuíram.

A televisão brasileira carece desse tipo de abordagem: crítica e, acima de tudo, reflexiva. A Grande Família á a prova de que o Brasil ainda tem muito a fazer para ser considerado um país em desenvolvimento e de que esse tipo de produção é possível (os índices de audiência não nos deixa mentir).

Definitivamente: o que a televisão, e particularmente o que A Grande família, faz não é lixo cultural, como aponta a maioria dos pensadores sobre o tema. 

Candidatos são desafiados no Caldeirão
Candidatos são desafiados no Caldeirão

O estudante Eder Coimbra venceu o concurso de palavras soletradas do quadro Soletrando, esquete do programa Caldeirão do Huck da Rede Globo de Televisão em 2008. Ele e outros estudantes se engajam numa disputa para saber quem é o melhor do Brasil em ortografia. Todos são determinados e lutam pelo o que desejam. Contudo, a produção do programa, incluindo apresentador e professor julgador, galga benefícios diante do sofrimento de estudantes do país.

 

Luciano Huck é o apresentador do programa. Ele faz perguntas aos alunos vindos de escolas de todo Brasil. Esses estudantes devem soletrar a palavra pedida. Na banca, o professor Sérgio Nogueira fica encarregado de dizer se a palavra foi soletrada corretamente ou erroneamente. O formato impressiona.

 

Há uma língua portuguesa padronizada. O professor Sérgio Nogueira é posto na posição única de julgador, capaz de dizer o que é CERTO ou ERRADO. Já o apresentador Luciano Huck é o provedor do espaço onde os brasileiros podem mostrar seu crescimento intelectual. Quanto mais os alunos correm para o programa, mais eles legitimam esse espaço, além da continuidade do quadro. O aprimoramento da educação brasileira e o renome de inteligente estão de acordo com os ditames da língua considerados louváveis pelo programa. Como se o português se reduzisse à mera diferença entre “hortênsia” com “s” ou “c”, palavra ainda pouco utilizada na comunicação diária.

 

A língua portuguesa é viva e serve à comunicação. A pessoa sábia a utiliza nas diferentes situações de comunicação do cotidiano. De nada adiante ser mestre em ortografia, se a pessoa não pode construir um texto coeso e coerente para atingir o interlocutor. Aliás, as palavras mudam. FLÔR tinha acento na primeira metade do século passado, mas hoje FLOR não possui mais o circunflexo. O programa se propõe a mudar o status da educação no país, mas o método usado não treina a articulação para construção de um texto. A língua é reduzida a um padrão, que possa servir de base para um julgamento simplificado de racionalidade posto nas mãos de um professor beneficiado com o renome na mídia. Um artista ainda pode ser chamado para a banca, pois atrai audiência.

 

O julgamento pode trazer fracasso ou sucesso na tentativa de reconhecimento. Os produtores se valem disso, cientes que todo ser humano busca uma definição ante a sociedade. Esse processo é prazeroso quando é bem sucedido. Mas pode ser um desastre quando envolve falhas. Assim, quando há uma falha na palavra soletrada e a eliminação, há o choro, a mostra pública do sentimento de ser renegado no mundo do proposto pelo Huck. Mas as palavras soletradas corretamente podem trazer o sucesso, o festival de prêmios e pirotecnias no palco pela capacidade do ganhador adentrar no espaço de fantasia do programa. Os presentes possuem uma áurea e o vencedor é alçado ao lugar de melhor do Brasil numa língua fictícia e monolítica. Mas ninguém é símbolo do português, pois a língua de todos.

 

A queda da língua oferecida pelo Huck se evidenciou pelo próprio apresentador, durante a pronúncia de “infra-hepático”. Nesse momento, quando a pluralidade começou a aflorar, a estudante Thafne Souza o reprovou durante o programa pelo modo de falar. Ele foi vítima de sua própria obra. Contudo, Huck aceita a reprovação, se põe na condição de errado e legitima a fala do professor Sérgio Nogueira (único capaz de dizer a verdade universal da língua). Huck se acanha para o bem de seu ganha-pão. Mesmo assim, ele gaguejou um pouco antes de referendar o professor e se auto-intitular de ERRADO. É complicado quando se atinge o próprio EGO para impor uma artificialidade.

  

A língua é diversa, as falas mudam de acordo com a região, a história e meio de cada um. Mas há espaços com códigos legitimados para o uso da fala. Cabe aos falantes conhecer bem a característica desses espaços para usar o português da melhor maneira. O programa também legitima um uso, mas o faz de modo a garantir o interesse de seus produtores, estabelecendo uma língua imposta como verdade universal. Através dela, a emoção é provocada no programa. Os estudantes podem ouvir o “está errado”, submetidos a uma hierarquia estabelecida pelo concurso para saber quem consegue a excelência na língua referendada pelo programa. Sob o pretexto de garantir a educação do país, o apresentador Huck e o professor Sérgio Nogueira desejam arrumar um jeito de se estabilizarem na mídia a custa dos outros. Os estudantes buscam o que só o programa pode dar: reconhecimento. 

Reconhecimento na sapiência de uma portuguesa entendida de cabeça para baixo, como sinônimo de verdade universal, própria de um mundo benéfico do Huck e do professor, alimentado pelos índices de audiência da Rede Globo.

 

Os índices de educação na língua portuguesa vão melhorar, quando a taxa de evasão e o abandono das escolas diminuírem. Apenas 50 % dos estudantes concluem o ensino fundamental no país. Isso é grave. A educação no Brasil está na escola. Somente a festa do Huck com a sineta da ortografia do professor Nogueira não vale. A língua é coletiva e articulada, Não é construída com base em reduções numa palavra determinadora da capacidade das pessoas.