Diria o profeta tricolor (foto 1) que o sujeito quem nunca assistiu ao Canal 100 não viveu. Os primeiros pontos em preto-e-branco dos tempos de um jornalismo romântico imortalizavam imagens de um futebol igualmente romântico, cujos atores poderiam ser um anjo, como o da perna torta, ou um Deus – lembro-me do imortal Carlito Rocha -, e ainda havia príncipes, reis, mestres e até um vira-lata da sorte, o Biriba, uma espécie de pé de coelho para os alvinegros. Já ia me perdendo, mas não tão tarde, dos inesquecíveis manés, que incumbidos da ingrata tarefa de marcar Garrincha arrancavam gargalhadas do público que lotava o estádio Mário Filho nas tardes de domingo. Ossos do ofício daqueles pobres zagueiros, circo garantido para as multidões.
O Profeta Tricolor
Antes de continuar, preciso confessar, caro leitor, que não estava lá para confirmar a veracidade dessas e de outras estórias que conto. Imergia em alguns minutos mágicos do futebol pelas telas do Canal 100, aos sábados à tarde, canal Bandeirantes, sempre em véspera de clássico no Maracanã. De fato, não sei se os jogos, em todos os seus 90 minutos, eram tão encantadores e, por vezes, sobrenaturais, como narravam os épicos, dramas e poesias de gênios do jornalismo esportivo como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira ou o próprio Mário Filho em carne e osso.
A história oficial – sempre muito objetiva e, por isso, com uma imparcialidade entediante – relata que o cinejornal Canal 100 nasceu nos idos de 1958, e por suas telas desfilaram os principais esquetes, craques e campeonatos do país durante 27 anos, sempre antes das sessões de cinema. Pela autoridade que me confere esta pena na mão, retificarei essa informação. Na verdade, o canal 100 era veiculado pela televisão, sempre depois da carne assada na casa da minha avó, para uma platéia formada por primos, tios e avô, cujos comentários saudosos transmitiam colorido aqueles clássicos desbotados pelo tempo, mas não pela memória.
Mas tudo isso foi no tempo em que DonDon jogava no Andaraí. O Canal 100 não teve vida longa também na televisão. O que restou foi uma lacuna jamais preenchida na vida de todo brasileiro apaixonado por futebol.
Independente do Canal 100, a vida continuou e a carne assada da minha avó também. Entretanto, agora, no domingo à noite, costumava parar em frente à TV para compartilhar palpites de ex-jogadores, jogadores e técnicos, que discutiam com base em uma lógica inexistente no futebol. Era o boom das mesas redondas. Primeiro, foi na CNT, com Garotinho e Gerson, o Canhotinha de Ouro (foto 2). Depois, chegou a vez da Band e da Record.

Gerson, o Canhotinha de Ouro
Outra coincidência, repito “coincidência”, foi o desânimo crescente do menino de 12 anos pelo futebol profissional. Poderia culpar as fulminantes paixões adolescentes ou as responsabilidades que vinham com o bigode. Mas, não. As mesas redondas acabaram com os tempos de DonDon. Discutia-se tudo ali – transações milionárias, ídolos que viravam a casaca, atitudes politicamente incorretas – menos aquilo que, anteriormente, fazia a piada pronta nos botecos e esquinas do Rio de Janeiro.
Disse anteriormente que “o que restou foi uma lacuna jamais preenchida na vida de todo brasileiro apaixonado por futebol”. No meu caso, esse vazio encontrou lugar nas peladas de pés descalços nas ruas de Madureira. Pelo menos ali, tantos outros meninos como eu gostavam de pintar o sete à caminho do gol. Grifo que o mais importante era a plasticidade dos lances e dos dribles, que podiam te tornar o menino mais famoso e respeitado do bairro.
Passaram-se os anos – de certo modo, há anos não pulsava as ilusões do futebol de outrem –, e eis que em mais um domingo assistindo ao Fantástico surge o jornalista Tadeu Schmidt para comentar a rodada do final de semana. O surpreendente no quadro foi me deparar com a construção de uma narrativa esportiva mais humorada, irônica e inteligente do que a tradicional, que se propõe séria e racional. O que é tímido é a estória de fundo, aquela que compõe toda partida de futebol, ainda muito convencional se comparada com os tempos áureos do jornalismo esportivo.
Querido leitor, já que teve paciência e chegou ao final dessa crônica, poderá entender que o exagero é fundamental na narrativa esportiva. Por isso, ainda fico com as batalhas no Coliseu do Canal 100.

Fla-Flu no canal 100
Emilio Surita comanda o Pânico pela Rede TV!



